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Para ler depois

Três autoras brasileiras para pensar liberdade, dinheiro e educação

Maria Firmina dos Reis, Júlia Lopes de Almeida e Nísia Floresta: três obras para ler sem reduzir suas diferenças a uma única história de emancipação.

Três livros de tecido verde, ferrugem e ocre dispostos sobre uma mesa escura.
Ilustração editorial para três caminhos de leitura.

Uma mulher recorda a liberdade que lhe roubaram. Outra mantém funcionando a casa em que ocupa um lugar inferior. Uma escritora interpela um país que se considera civilizado e pergunta por que não educa suas mulheres. São três entradas para a literatura brasileira — e três maneiras de tornar insuficiente uma palavra aparentemente simples: liberdade.

Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, A falência, de Júlia Lopes de Almeida, e Opúsculo humanitário, de Nísia Floresta, não formam uma escola única. Não pertencem ao mesmo gênero nem fazem as mesmas escolhas de linguagem. O interesse de aproximá-los está justamente em acompanhar o que muda quando uma questão passa por memória, ficção doméstica e intervenção pública.

O percurso pode começar por qualquer um. Também pode prolongar perguntas deixadas por A filha do artista, de Anália Franco, cuja protagonista é instruída, trabalha e ainda assim depende da casa de outra família. Não é preciso conhecer esse romance para entrar na conversa. Cada uma das três obras oferece seu próprio problema, seu próprio mundo e sua própria resistência à leitura apressada.

Maria Firmina dos Reis: a liberdade existia antes do benfeitor

Publicado em 1859, Úrsula organiza uma narrativa amorosa e nela inclui personagens escravizados cuja experiência modifica o horizonte da história. No capítulo IX, Túlio conversa com Susana antes de partir com Tancredo, a quem associa sua libertação. Seu entusiasmo é compreensível: a mudança é concreta, e ele sente gratidão.

Susana, porém, introduz outra medida. Ao ouvi-lo celebrar a liberdade, recorda a que possuía antes do cativeiro. Havia uma vida na África: convivência com outras jovens, casamento, uma filha, trabalho e vínculos. O sequestro não retira apenas a possibilidade abstrata de ir e vir. Destrói uma continuidade. Leia o capítulo IX, “A preta Susana”, integralmente.

A diferença entre os dois pontos de partida é decisiva. Se a narrativa começasse apenas com o gesto do homem que liberta, a pessoa escravizada correria o risco de aparecer como alguém que recebe de outro o início de sua humanidade. A memória de Susana impede essa redução. Ela já tinha mundo, afeto, escolhas e história.

A primeira pessoa também muda o estatuto do relato. Susana não entra apenas como corpo observado ou como ocasião para demonstrar a bondade de um personagem livre. Ela conta. A travessia atlântica é narrada por quem a sofreu dentro da ficção, e os sequestradores recebem a acusação de barbárie.

Isso não converte a personagem em testemunho documental de uma mulher real identificável. É uma construção literária de Maria Firmina. Sua força está no modo como essa construção distribui memória e autoridade.

O romance permanece sentimental e religioso. A denúncia não depende de abandonar a emoção, mas de conferir-lhe outra origem. Para lê-lo, uma pergunta vale mais que procurar somente “o tema da escravidão”: o que muda quando uma personagem tem um passado que não começou na casa do senhor?

Júlia Lopes de Almeida: quem sustenta a casa que exibe riqueza?

A falência, publicado em 1901, começa no movimento do comércio de café. A rua tem carregadores, ruídos, poeira, mulheres em atividade e gente apressada. No armazém de Francisco Teodoro, a circulação da mercadoria assume a forma de um trabalho intenso e ordenado. A riqueza não aparece primeiro como número: passa por corpos, cadernos, sacas e ordens. O texto integral está disponível no Project Gutenberg.

Essa abertura prepara uma investigação que não cabe na separação entre “economia” e “família”. A casa participa da vida material que parece ocorrer longe dos salões. Prestígio, conforto e autoridade dependem de relações que podem falhar.

Nina é uma das melhores entradas para essa organização. Acolhida ainda menina, cresce fazendo serviços e carregando o estigma atribuído à mãe. Seu trabalho de cuidado com Ruth contribui para conquistar um lugar na casa, mas não apaga a desigualdade desse pertencimento. Na lembrança de sua infância, a narrativa mostra como necessidade e gratidão podem se transformar em obediência esperada.

O paralelo com Edith, de Anália Franco, é sugestivo, mas não torna as personagens intercambiáveis. Nina possui outra trajetória e outra relação com o trabalho doméstico. A comparação serve para observar mecanismos: em que momento a pessoa acolhida passa a parecer permanentemente devedora? O que conta como contribuição, e o que é tomado como obrigação natural?

A obra também não oferece uma única perspectiva feminina. Camila, Nina, Ruth e Noca não ocupam a mesma posição nem respondem de modo idêntico aos acontecimentos. Ler apenas “a situação da mulher” no singular apagaria o trabalho formal de diferenciar seus horizontes.

Uma boa pergunta para acompanhar o romance é esta: quando alguém diz que mantém uma casa, quais trabalhos está incluindo nessa conta? A resposta muda conforme passamos do dinheiro ao cuidado, da propriedade ao uso e da autoridade ao esforço cotidiano.

Nísia Floresta: obrigar a palavra civilização a prestar contas

Em 1853, Nísia Floresta publicou Opúsculo humanitário, um conjunto de 62 capítulos voltados à educação e à condição das mulheres. Aqui a mudança de gênero é parte do prazer da leitura. Não esperamos que uma intriga distribua as consequências de uma escolha: encontramos uma autora argumentando, interpelando e exigindo coerência de seus destinatários.

Na abertura, a expressão “educai as mulheres!” é dirigida a uma sociedade que se apresenta como civilizada e a um governo que se diz liberal. O trecho é reproduzido na apresentação do livro pelo Jornal da USP; exemplares históricos podem ser localizados na BBM/USP.

A operação retórica merece ser saboreada. Em vez de aceitar “civilização” como elogio que um país faz a si mesmo, Nísia transforma a palavra em obrigação. Se essa é a identidade reivindicada, onde está seu efeito na educação? A distância entre o nome e a prática vira matéria de crítica.

A leitura pode acompanhar exatamente esse movimento: quais valores a autora invoca, a quem os dirige e o que exige deles? Um ensaio não precisa de personagens para criar tensão. Ela nasce da contradição entre o que uma sociedade declara e o que efetivamente permite.

Também aqui convém resistir ao elogio que aproxima demais. Ler uma intervenção do século XIX não é recolher frases que soem como um manifesto escrito hoje. As concepções de educação, família e dever precisam ser examinadas no percurso da argumentação. Um texto pode abrir possibilidades sem formular todas as questões que gostaríamos de lhe dirigir.

O exemplar de 1853 preservado pela BBM/USP permite observar a forma impressa dessa intervenção. A história material faz parte do encontro: não estamos diante de uma ideia sem data, mas de uma intervenção que tomou a forma de um livro.

Comparar sem fabricar uma linhagem

Essas leituras não precisam ser justificadas pela hipótese de que uma autora influenciou outra. Sem evidência, essa afirmação seria um atalho. A comparação proposta aqui pertence ao leitor: escolhemos uma pergunta e observamos respostas que não coincidem.

Em Maria Firmina, a memória impede que a liberdade seja reduzida ao presente concedido por um protetor. Em Júlia Lopes, a casa revela trabalhos e dependências que sua aparência de unidade esconde. Em Nísia, a educação funciona como prova da seriedade de uma promessa pública.

Nenhuma dessas operações substitui as outras. Uma reforma de linguagem não entrega por si só os recursos para viver. Uma renda não apaga a memória de uma violência. Um gesto de benevolência não resolve o problema de quem define as condições da ajuda.

É por isso que os três livros rendem mais como diferenças que como ilustrações de uma conclusão pronta. O próximo clássico não precisa confirmar o anterior. Pode ser aquele que torna a pergunta anterior mais difícil — e, finalmente, mais interessante.

Obras e referências