Voltar ao blog

Temas do livro

Educação feminina no século XIX: aprender bastava para sobreviver?

Da lei de 1827 às aulas dadas por Edith, em A filha do artista, a educação feminina revela disputas sobre trabalho, cuidado e autonomia.

Duas mulheres estudam um desenho junto a um caderno de música em uma mesa simples.
Ilustração editorial inspirada na transmissão de saberes entre mulheres.

Uma lei pode abrir a porta da escola e, ao mesmo tempo, decidir até onde uma menina deve entrar. A legislação de 15 de outubro de 1827, que tratou das escolas de primeiras letras no Império brasileiro, incluiu o ensino feminino. Mas o currículo não era o mesmo: para as meninas, excluía a geometria, limitava a aritmética às quatro operações e acrescentava prendas ligadas à economia doméstica.

A diferença está no documento, não apenas nos costumes que poderíamos imaginar ao redor dele. O conhecimento já vinha organizado por uma expectativa de destino. Meninas deveriam aprender, mas certas matérias eram retiradas e outras, acrescentadas, conforme o lugar social que lhes era reservado. Veja os artigos 6º, 11, 12 e 13 da lei de 1827.

O problema da educação feminina no século XIX não cabe, portanto, na oposição entre uma escuridão sem escolas e uma liberdade finalmente trazida pela instrução. É preciso perguntar quem podia aprender, o quê, com quais recursos e para fazer o quê depois. Um romance de Anália Franco torna essas perguntas particularmente concretas: sua protagonista, Edith, é instruída e trabalha, mas continua vulnerável.

O que a lei abre e o que a lei delimita

A mesma legislação que diferenciava os conteúdos previa para mestras os mesmos ordenados e gratificações concedidos aos mestres. Também condicionava a criação de escolas de meninas, nas cidades e vilas mais populosas, ao julgamento de necessidade pelas autoridades provinciais. O documento combina inclusão, restrição curricular e uma previsão de igualdade remuneratória.

Essa combinação é mais instrutiva que uma narrativa de progresso linear. Mostra que avanços e limites podem estar inscritos no mesmo ato. Não se deve concluir, apenas lendo a norma, que todas as meninas tiveram acesso efetivo à escola ou que a igualdade prevista se realizou na prática. Uma lei organiza possibilidades e obrigações; sua execução exige outra investigação.

Ela tampouco descreve toda a educação do período. Existiam experiências domésticas, estabelecimentos particulares e percursos individuais diversos. Usá-la como retrato completo apagaria justamente as diferenças que precisamos compreender.

O ponto decisivo é outro: o ensino não era pensado como uma oferta neutra de capacidades. Selecionar matérias significava antecipar funções. Uma educação podia ampliar a vida intelectual das alunas e continuar estreitando o campo em que se esperava que a utilizassem.

A menina que aprende ao lado de uma mãe enferma

Em A filha do artista, Edith recebe formação em música, desenho e outras dimensões da instrução doméstica. O pai, Álvaro, trabalha como artista e professor. A mãe, Hermantina, havia estudado num colégio do Rio de Janeiro e participa diretamente do aprendizado da filha.

Quando Hermantina adoece, a educação não desaparece, mas muda de ritmo. Ela ensina nas horas em que as dores permitem. Edith divide o tempo entre estudo e cuidado. Aprender não ocorre depois que as necessidades da casa estão resolvidas; ocorre dentro delas. A história está no capítulo II do volume I, disponível na BBM/USP.

O detalhe desloca o foco do talento individual para as condições de sua formação. Para que Edith se torne uma jovem instruída, alguém precisa transmitir conhecimentos, alguém precisa cuidar e algum tempo precisa ser encontrado entre tarefas urgentes. A doença interfere nesse arranjo.

A mãe não é apenas inspiração afetiva. É professora dentro de uma circunstância material adversa. Seu trabalho aparece menos no título do romance, centrado no artista, mas é indispensável para compreender a capacidade da filha.

Ela já trabalha — e isso não resolve tudo

Depois da morte do pai, Edith dá aulas a meninas da vizinhança na própria casa. O narrador diz que os recursos obtidos bastam às necessidades muito modestas dela e da mãe. Não estamos diante de uma personagem que aguarda, sem fazer nada, a generosidade de um protetor.

Essa informação impede dois erros opostos. O primeiro seria tratar sua educação como puro enfeite, sem efeito prático. Ela produz renda. O segundo seria concluir que o trabalho remunerado equivale automaticamente a independência. A atividade atende a um orçamento estreito, convive com o cuidado e não elimina a insegurança.

Quando Hermantina morre, Florisa, amiga dela e madrinha de Edith, acolhe a jovem na Fazenda Bela Vista. A capacidade de ensinar não desapareceu. O que mudou foi o conjunto de vínculos e recursos em que sua vida se apoiava.

Uma habilidade pertence à pessoa, mas seu exercício depende de relações. Alunas, instrumentos, moradia, tempo e confiança de famílias não acompanham necessariamente quem precisa se deslocar. O romance não fornece um balanço financeiro da protagonista, nem precisamos inventá-lo. Mostra o suficiente para perceber que saber trabalhar e ter condições estáveis de trabalho são coisas diferentes.

Uma formação para brilhar, outra para servir?

Laura, jovem rica do mesmo romance, também recebeu instrução. O narrador, porém, a considera mais brilhante que sólida e associa sua educação ao luxo, à vaidade e ao desejo de se destacar. Edith recebe o contraste favorável: sua formação aparece unida a dedicação e modéstia.

A oposição expressa uma crítica ao conhecimento convertido em exibição social. Mas ela também exige cautela. Por que a mulher instruída precisa demonstrar que não deseja brilhar? Por que o talento da personagem admirável deve vir acompanhado de tanta renúncia?

Uma leitura crítica não precisa escolher entre elogiar a vaidade e exigir apagamento. Pode reconhecer que aprender para impressionar é um horizonte limitado, sem concluir que uma mulher só merece instrução se colocar tudo o que sabe a serviço dos outros.

Aqui o romance oferece uma tensão mais interessante que uma lição pronta. A educação pode produzir autonomia, renda, distinção e dever. Nem sempre esses resultados caminham juntos, e nem sempre a personagem escolhe qual deles será mais valorizado.

Anália Franco leva a disputa à imprensa

Em “Notas sobre a educação feminina”, no Álbum das Meninas, Anália critica o medo de oferecer às mulheres uma cultura mais vasta. Reivindica acesso às ciências, às artes e às diversas formas do pensamento. Também ataca uma instrução limitada à elegância e ao brilho social. O texto está no número 12, páginas impressas 269–271.

A proximidade com a ficção é produtiva, mas não autoriza transformar o romance em tradução de um artigo. No periódico, a autora formula diretamente sua intervenção; na narrativa, distribui conhecimentos e condições de vida entre personagens. O argumento ganha corpo, conflito e consequências que não cabem num princípio geral.

É importante notar ainda que a defesa da instrução convive, no texto de Anália, com expectativas de regeneração familiar e formação moral. Ampliar o acesso não significa necessariamente questionar cada responsabilidade atribuída às mulheres. O movimento histórico contém essa ambivalência.

A pergunta mais exigente não é se ela foi inteiramente moderna ou inteiramente conservadora. É o que sua intervenção procurava mudar e o que ainda tomava como fundamento.

Não existe uma única experiência feminina

Edith não representa todas as mulheres de seu mundo. Uma jovem livre, educada em casa e ligada por amizade a uma família abastada não dispõe das mesmas possibilidades que uma pessoa escravizada. Laura, por sua vez, não depende dos mesmos recursos que a órfã. A condição feminina é atravessada por diferenças de posição, riqueza e acesso.

Por isso, uma história da educação que reúna tudo sob a imagem da menina impedida de estudar pode esconder formas distintas de exclusão. Há quem não entre na escola, quem tenha o currículo limitado, quem aprenda mas não encontre trabalho, quem trabalhe sem poder controlar a renda ou o próprio tempo.

Essas diferenças não enfraquecem a importância da educação. Tornam mais clara a extensão da tarefa. Ensinar uma capacidade é necessário; criar condições para exercê-la também.

Ao lado da mãe, Edith estuda, cuida e depois ensina. A cena nos deixa uma imagem menos triunfalista e mais verdadeira do que aprender pode fazer. O conhecimento amplia seu mundo. Para que ela possa habitá-lo com liberdade, outras portas ainda precisam se abrir.

Referências

Para outra dimensão do mesmo problema, leia a análise da música e do trabalho de Edith. O romance está disponível na edição Busleyden.